O Foto Capital e A Casa da Luz Vermelha

apresentam a exposição itinerante

Sobre linhas, membranas e fronteiras

Mostra fotográfica de portfólios selecionados pelo Foto Capital
Visitação de 07 de novembro a 08 de dezembro de 2017
Galeria A Casa da Luz Vermelha, Asa Sul

Três artistas visuais que trabalham a fotografia como suporte apresentam trabalhos que dialogam com a arquitetura e a história da arte

No dia 07 de novembro às 20h será inaugurada a segunda itinerância da mostra fotográfica “Sobre linhas, membranas e fronteiras”, com obras de Cléo Alves Pinto, José Roberto Bassul, Michelle Bastos e curadoria de Renata Azambuja. Na ocasião, haverá um bate-papo – acessível em Libras – entre os artistas, curadoria e público participante.

A visitação é de segunda a sexta e vai até o dia 08 de dezembro, com entrada gratuita e livre para todos os públicos.

A mostra, que foi exibida originalmente no Museu Nacional de Brasília, teve sua primeira itinerância da Galeria Olho de Águia e agora passa pela Galeria A Casa da Luz Vermelha. Esta é uma iniciativa do Foto Capital, projeto apresentado pelo Fundo de Apoio à Cultura e pela Secretaria de Estado e Cultura do Distrito Federal.

Sobre a exposição

A mostra “Sobre linhas, membranas e fronteiras” é uma realização do Foto Capital, evento dedicado à fotografia, realizado em setembro de 2016, que reuniu em Brasília alguns dos mais importantes fotógrafos, curadores, produtores culturais e críticos brasileiros para uma jornada dedicada à fotografia como linguagem, poética e arte. Os três fotógrafos que participam da mostra foram selecionados nas leituras de portfólio realizadas por Carlos Carvalho, Diógenes Moura, Eugênio Sávio, Iatã Cannabrava, Kazuo Okubo, Milton Guran, Nair Benedicto, Renata Azambuja, Rosely Nakagawa e Tiago Santana. Como prêmio, ganharam a participação na exposição, a impressão das imagens e a mediação e curadoria de Renata Azambuja.

As obras dos portfolios que estarão expostas acabaram por adquirir uma potência por terem encontrado, em seu conjunto, pontos de convergência temáticos em que estão presentes espaço, arquitetura, cartografias, etnografia. “O olhar do fotógrafo, informado por suas questões pessoais, aponta para uma versão da verdade, mesmo quando dirige-se para um objeto real”, afirma Renata Azambuja. “A partir disso, os fotógrafos revelam várias facetas do real, e daí emergem catalogações etnográficas e imaginárias, um interesse pela semiologia que introduz narrativas, e olhares antropológicos sobre as imagens, marcando a presença e a interferência do ser humano na paisagem”, ressalta a curadora.

 

A Olho nu

Cléo Alves Pinto fotografou 509 fachadas de casas do Setor de Habitação Geminada Sul (SHIGS), mais conhecidas como as casas das 700 sul de Brasília. Ao projeto, deu o nome de “Membranas”. Biologicamente, membranas são estruturas que separam dois ambientes, controlando a passagem de substâncias entre eles. A capacidade da membrana de ser ou não atravessada por determinadas substâncias corresponde à sua permeabilidade. Fachadas são como membranas, explica. “Eu fotografo o que me deixam ver”. Cada imagem recebeu um código único e foi classificada de acordo com um método desenvolvido pela autora em uma das dez categorias de membranas, que vão de impermeável até permeável².

Cléo Alves Pinto nasceu em Curitiba, passou grande parte da vida em Minas Gerais e há oito anos mora em Brasília. É arquiteta e urbanista, e também formada em Pedagogia. A fotografia autoral é seu interesse mais recente, por meio do qual tem investigado assuntos como modos de morar, relações entre espaços públicos e privados, memória e (im)permanência.

Signos e identidades

José Roberto Bassul percorreu canteiros de obras onde para fotografar tapumes e o que há por trás destes. A série “Fronteiras”, formada por conjuntos articulados de imagens, permeia clausuras sociais e interpela o sentido da existência. As linhas opacas e ambíguas criadas por tapumes em canteiros de obras, separam mundos aparentemente distantes. Dentro, as imposições do trabalho. Fora, desejos intangíveis, caminhos que levam a lugar nenhum, a percepção da finitude, a diluição das identidades ou um sentido destroçado de nação impõem os limites da condição humana. “Bassul constrói associações entre signos para compor uma única imagem, mas sempre preocupado em manter o fluxo da série”, afirma Renata Azambuja.

Arquiteto e fotógrafo, José Roberto Bassul nasceu no Rio de Janeiro e vive em Brasília. Fotografou intensamente na juventude, mas na década de 1980 abandonou a fotografia para dedica-se à arquitetura. Trinta anos depois, retoma a atividade fotográfica, quando passa a desenvolver um trabalho autoral voltado para a arquitetura, a paisagem urbana e para os aspectos humanos da vida contemporânea.

Etnografia estética

Michelle Bastos percorreu a pé sete municípios fronteiriços entre os Estados do Maranhão e do Piauí para realizar uma pesquisa sobre a relação entre a identidade do morador e as paredes de suas casas. Naquele recorte geográfico é comum as paredes das casas serem pintadas pelos próprios moradores. Há uma relação direta entre a identidade e a busca da beleza. A paleta de cores foi dividida entre os moradores eufóricos (tons vibrantes) e melancólicos (tons pasteis) e relacionados com um questionário informal sobre a caracterização do humor de cada um. As paredes capturadas em close possuem detalhes como cores, manchas e pequenos improvisos que guardam uma relação direta com quem a pintou, como que se essas telas fossem uma representação da pele do morador, exibindo suas histórias, memórias, personalidade e relação com o espaço. São, em última instância, retratos, closes de pele de cada um ali representado.

Michelle Bastos é Bacharel em Artes e Ciência Política, com especialização em Retrato e Identidade Visual pelo Spéos Paris Photographic Institute e mestrado em Fotografia Fine Art pelo Instituto Europeu de Design. Foi finalista do Prêmio Helie Memorial em 2015 e realizou exposições coletivas em Madri, Granada, Alicante e Brasília. É autora do livro Dulcina de Moraes – Memórias de um Teatro Brasileiro, uma coletânea de fotografias de arquivo e pesquisa histórica do teatro brasileiro do Séc. XX, publicado pela LGE Editora.

Entrevistas

Durante o processo de curadoria, Renata Azambuja elaborou uma série de perguntas acerca da relação dos artistas com a fotografia e a arte. Confira abaixo, na íntegra, a declaração de cada.

Cléo Alves Pinto
1.Como você ingressou na área da Fotografia?
Há alguns anos percebi que quando visitava algum museu ou exposição, o que verdadeiramente me chamava atenção e me mobilizava
emocionalmente de alguma forma eram as fotografias. Desde essa época eu já fotografava, basicamente em viagens, mas sem nenhum conhecimento técnico e com câmeras digitais simples. Tudo no automático! O objeto variava, mas a arquitetura e a cidade sempre foram temáticas presentes.
Em 2013 fiz um curso básico de fotografia, comprei uma câmera melhor e não fotografei mais no automático! Em 2014 durante alguns meses participei de um grupo de fotografia informal: éramos quatro arquitetos que um domingo por mês saía para fotografar algum edifício interessante em Brasília. Logo depois, no início de 2015, um amigo que fazia parte desse grupo me mandou um e-mail com a convocatória para a 3a edição do Núcleo de Produção em Fotografia Contemporânea da Galeria Ponto.
Despretensiosamente enviei minhas fotos e, surpreendentemente, fui escolhida para participar. Foi uma experiência muito rica, pois eu sabia pouquíssimo sobre fotografia e sobre fotógrafos até então. Durante um ano pude desenvolver um projeto que já estava na cabeça, mas que eu não sabia como estruturar (o Membranas!), troquei muitas experiências com os colegas, fiz minha primeira exposição e meu primeiro portfólio.
A partir daí outros cursos (teóricos e práticos) vieram, assim como outras idéias para projetos fotográficos, que venho desenvolvendo aos poucos, paralelamente à minha atuação profissional como arquiteta.
2.Como você vê o papel da fotografia na contemporaneidade?
Em função do constante desenvolvimento tecnológico, a fotografia tem tido suas possibilidades multiplicadas e, cada vez mais, tem  sido apropriada como um modo de registro instantâneo, com múltiplos objetivos e resultados. Isso vale tanto para as possibilidades artísticas, quanto de comunicação, documentação, entre outras.
Vivemos um momento de muita pluralidade e de muitas possibilidades de expressão, sendo assim, considero que exista espaço para tudo. Sempre vai haver fotos boas, fotos ruins, fotos relevantes, experimentalismos. E o entendimento sobre isso também pode mudar. Muito do que foi produzido em fotografia não era considerado a princípio “boa” fotografia, pelo fato de ser inovadora, provocadora, ou simplesmente diferente. Com o tempo, muitos desses trabalhos passaram a ter valor no campo da arte, tornando-se inclusive referências, clássicos.
Não sabemos qual o será o futuro da fotografia e como o que é produzido hoje será visto em algumas décadas, mas, de todo modo, será um registro (muito extenso!) do que é a sociedade urbana ocidental atual.
3.Com quais fotógrafos e fotografias você se identifica e por quê?
Em termos de identificação Bernd and Hilla Becher têm um trabalho altamente inspirador para mim. As questões de documentação, pesquisa e registro histórico me interessam muito e o casal fez isso com maestria e com resultados visuais belíssimos. Gosto também da produção documental do Ed Ruscha nas décadas de 1960/70 em Los Angeles.
Há muitos outros fotógrafos que admiro, para além da questão da identificação na minha produção fotográfica. Entre eles tenho que citar Martin Parr pelo humor e leveza com que faz uma crítica do cotidiano. Em outro extremo, destaco a fotógrafa Viktoria Sorochinski, que tem produções belíssimas e intrigantes com a temática familiar. Entre elas, a série Anna e Eve, que me impactou muito.
Entre os brasileiros, gosto muito do trabalho de rua do Alécio de Andrade e dos projetos do Pedro David. Porém, várias outras formas de arte me alimentam como fotógrafa, me inspiram e me influenciam de alguma forma. Entre elas posso citar a fotografia de cinema, que tem me interessado ultimamente, principalmente a partir do filme Ida. Gosto muito também do trabalho da designer gráfica Victoria Siemer, utiliza elementos da contemporaneidadeem suas produções fotográficas e gráficas.
4.Você acredita que ainda haja fronteiras de linguagem que delimitam campos entre fotografia e arte ou pensa que isso nunca foi uma questão relevante?
Considero que essa foi uma questão no campo da arte durante algum tempo, quando havia uma contraposição entre fotografia documental e artística. Paulatinamente essas fronteiras foram tornando-se mais permeáveis, em função dos contextos social e cultural. Contudo, acredito que a fotografia como arte se consolidou a partir da ideia de campo expandido, com base no conceito da teórica da arte Rosalind Krauss em 1978.
Nesse sentido, a fotografia continuará sua evolução, assim como a atribuição de valor a uma obra como arte. Vejo essa questão como um processo permanente de construção e validação, e penso que abrir possibilidades de permeabilidade, ou mesmo romper fronteiras e limites, pode ser muito benéfico tanto para um campo, quanto para outro.
5.Os portfolios selecionados para esta exposição tem, guardadas as diferenças entre os projetos de cada fotógrafo, o espaço e a arquitetura como elementos em comum. Como você vê a interseção entre essas questões (espaço, espacialidades, arquitetura, cidade, ocupação urbana etc) em relação à série que você apresenta neste evento?
Sou uma arquiteta apaixonada pelo meu objeto de estudo e de trabalho.
Acredito que o espaço tem uma influência enorme sobre o que se passa nele, ou seja, sobre o que será vivido, experimentado, sentido quando alguém estiver ali. Por outro lado, as pessoas podem modificar, subverter, ocupar de variadas formas um espaço, de modo até a alterar sua concepção original de uso. Essa é a força da vida real e a vida real está escancarada nas 700 sul com toda a sua diversidade: modificações em residências anteriormente padronizadas, invasões de espaço público, construção de muros e coberturas em contraponto a portas e janelas abertas.
No caso do Membranas, à primeira vista pode parecer um projeto limitado a um registro arquitetônico de um tipo de habitação brasiliense. Mas, na verdade, ele parte da arquitetura e do urbanismo para mostrar como os moradores interagem com o seu espaço, com a sua casa, o que mostram e o que escondem. Dessa maneira, é também um projeto sobre relações entre espaços públicos e privados, sobre modos de morar e sobre pessoas.
José Roberto Bassul
1.Como você ingressou na área da Fotografia?
Com 15 anos, no ensino médio, eu estudava numa escola inovadora chamada Colégio Pré-Universitário de Brasília, conhecida como “o Pré”. Havia lá, para além do currículo obrigatório, uma oferta de disciplinas de livre escolha: enfermagem, teatro, cinema, fotografia etc. Aprendi fotografia com o professor Kim-Ir-Sen, um fotógrafo extraordinário, atualmente estabelecido em Goiânia, a quem sou grato até hoje.
Eram os tempos da fotografia analógica. Aprendemos os fundamentos do ato de fotografar, a revelar filmes e ampliar negativos. Foi uma descoberta!
Me empolguei, tive o apoio de meus pais, ganhei uma câmera de presente, uma Pentax, e montei um laboratório em casa. Fui premiado em alguns concursos, o principal deles a 3ª Mostra de Fotografia da Funarte, que selecionou trabalhos de fotógrafos consagrados, como Araquém Alcântara, Walter Carvalho e Luís Humberto, por exemplo, e de anônimos iniciantes como eu. Uma ousadia maravilhosa de uma equipe então coordenada pelo grande fotógrafo Zeka Araújo.
Fiz vestibular para arquitetura na UnB e me formei aos 22 anos.
A partir de então, sem saber exatamente o porquê, abandonei a fotografia por completo e me dediquei à arquitetura e ao urbanismo.
De dois anos para cá, no entanto, o interesse pela fotografia retornou com grande força. Costumo dizer que dormi analógico e acordei digital…
Fiz cursos de atualização e aperfeiçoamento, participei de workshops, passei a ler livros técnicos e conceituais e a frequentar grupos de estudos e práticas fotográficas. Estruturei um pequeno atelier em casa e comecei a publicar fotos em algumas redes sociais. Voltei a participar de concursos no Brasil e no exterior e tive a honra de receber vários prêmios e destaques nesse período. Passei também a ser convidado para expor em galerias como a Referência e a Alfinete, ambas em Brasília. Como prêmios em eventos fotográficos, fui selecionado para expor no Paraty Em Foco em 2016, para apresentar um portfólio para curadores, galeristas e editores no Festival de Fotografia de Tiradentes de 2017 e agora, pelo Foto Capital, para expor no Museu Nacional da República.
2.Como você vê o papel da fotografia na contemporaneidade?
Nascida há cerca de 180 anos, a fotografia transformou-se de um invento revolucionário – capaz de reproduzir a realidade com maior velocidade e fidedignidade que a gravura, o desenho e a pintura – num meio de expressão artística autoral, sem perder as possibilidades técnicas que sempre ofereceu. A catalogação por imagens para diversos fins, como inventários, arquivos e identificação, por exemplo, vale-se da técnica fotográfica assim como as mais diversas formas de expressão plástica e de linguagem estética.
O advento das redes sociais e, sobretudo, dos smartphones trouxe uma nova dimensão à fotografia. Democratizadas, quase universalizadas, as possibilidades do registro fotográfico são compartilhadas na internet em bilhões de imagens publicadas cotidianamente. A fotografia começa a adquirir, ela própria, a condição de instrumento de comunicação. Na sociedade imagética em que passamos a viver, fala-se cada vez menos por meio de mensagens textuais e cada vez mais por vídeos e fotografias que informam de modo imediato onde e com quem estamos, o que fazemos, o que vestimos (ou despimos), o que comemos e até, com um pouco mais de dificuldade expressiva, o que pensamos.
Mas, em minha opinião, esse fenômeno de popularização do ato fotográfico em nada se contrapõe às possibilidades de expressão artística da fotografia, ao seu estatuto de arte conquistado nas últimas décadas. Haverá sempre um limiar entre as imagens que fazemos com o objetivo de promover uma comunicação ligeira e eficiente e aquelas outras que venham a ser legitimadas, pelas sensações e reflexões que despertam, como manifestações artísticas. É o que ocorre com a literatura, por exemplo. Embora bilhões de pessoas saibam escrever, nem todas são escritoras ou poetas.
3.Com quais fotógrafos e fotografias você se identifica e por quê?
São muitas as influências e referências que atravessam minha formação. Penso que muitos autores e obras, na fotografia ou fora dela – na literatura, no cinema, na música, na crítica social ou política – , são determinantes no meu exercício fotográfico, consciente ou inconscientemente. Para não me alongar, posso citar alguns fotógrafos, de modernistas a contemporâneos, cujas obras me impressionam.
Entre os primeiros, estão o franco-húngaro André Kertész, pela poética afetiva e inventiva; o franco-brasileiro Marcel Gautherot, pelo rigor plástico e pelo domínio dos efeitos da luz no desenho das formas; e o brasileiro Geraldo de Barros, pela inquietude criativa.
Entre os segundos, poderia destacar o estadunidense Ralph Gibson, que, nascido em 1939, mantém uma expressividade que combina rigor técnico, economia de elementos visuais e estética contemporânea; o alemão Thomas Struth, que provoca um olhar reflexivo ao construir imagens aparentemente objetivas e documentais; o também alemão Kai Ziehl, por sua capacidade de emocionar com grafismos minimalistas; e o brasileiro Cássio Vasconcellos, pelo caráter surpreendente de suas imagens fragmentadas, que levam o espectador a uma atitude inquieta e indagativa.
4.Você acredita que ainda haja fronteiras de linguagem que delimitam campos entre fotografia e arte ou pensa que isso nunca foi uma questão relevante?
A validação do estatuto da fotografia como arte reproduz o que acontece com as demais formas de expressão artística. Não se trata de uma definição universal ou essencialista, mas de uma noção culturalmente construída. Nossa percepção das circunstâncias nas quais uma obra assume a condição de arte é determinada pelos contextos sociais e culturais em que vivemos, os quais, por sua vez, são construídos e desconstruídos no transcurso do tempo.
O fato de que, em tese, qualquer imagem ou instalação possa ser reconhecida como obra de arte não significa que todas sejam uma manifestação artística. Essa validação seletiva decorre de um processo de legitimação, de uma prática discursiva orientada por diversos olhares, não apenas os de editores, curadores, galeristas, críticos, professores e outros profissionais e especialistas, mas também os dos demais observadores.
No entanto, diferentemente do que ocorre com outras formas de manifestação artística – como o desenho, a gravura e a pintura, nas quais o artista, diante de um suporte em branco, escolhe o que incluir na obra em construção – , o fotógrafo decide preliminarmente o que excluir de uma imagem posta diante de sua câmera. Só então inclui os elementos determinantes de sua intenção criadora. O domínio dessa dialética, exclusão-inclusão, talvez constitua a principal chave para a atribuição de valor artístico à imagem fotográfica.
5.Os portfolios selecionados para esta exposição tem, guardadas as diferenças entre os projetos de cada fotógrafo, o espaço e a arquitetura como elementos em comum. Como você vê a interseção entre essas questões (espaço, espacialidades, arquitetura, cidade, ocupação urbana etc) em relação à série que você apresenta neste evento?
Na visão do saudoso professor Milton Santos, a cidade é “o lugar do encontro”, no sentido da variedade dos meios, modos e possibilidades produtivas e criativas que reúne. Esse encontro, contudo, revela conflitos e ambiguidades.
Conflitos ambientais, como o que ocorre entre a expansão urbana e o espaço natural. Conflitos culturais, influenciado pela confluência de vivências distintas para um mesmo espaço geográfico. Conflitos econômicos, marcados pela apropriação desigual da renda urbana. Conflitos sociais, determinados pela distribuição injusta do acesso aos serviços e equipamentos urbanos. Conflitos políticos (palavra derivada do grego pólis, que significa cidade-estado), marcados por diferentes visões de mundo.
O espaço urbano revela, portanto, uma ambiguidade tensa entre as possibilidades do encontro e os limites do desencontro.
Formada por conjuntos articulados de dípticos justapostos, a série “Fronteiras” aborda metaforicamente essa ambiguidade. Estabelece relações imagéticas entre a idealização de uma vida gratificante e as impossibilidades trazidas pela realidade. Permeia clausuras sociais e interpela o sentido da existência.
Linhas opacas, criadas por tapumes em canteiros de obras, separam mundos aparentemente distantes. Dentro, as imposições do trabalho.
Fora, desejos intangíveis, caminhos que levam a lugar nenhum, a percepção da finitude, a diluição das identidades ou um sentido destroçado de nação impõem os limites da condição humana.
Michelle Bastos
1.Como você ingressou na área da Fotografia?
Entrei no mundo fotografia devido à uma inquietação criativa que o teatro não supriu. Formei Bacharel em Artes Cênicas quando tinha 21 anos mas já atuava no teatro amador desde o começo da adolescência, Quando ingressei no ramo profissional do teatro foi extremamente frustrante e eu busquei, por alguns anos, alguma linguagem artística com a qual eu me identificasse mais e pudesse trabalhar de maneira mais autônoma. Experimentei vários segmentos, mas foi com a publicação do meu livro “Dulcina de Moraes- Memórias de um Teatro Brasileiro”, em 2007, pela LGE Editora, que tive um contato mais profundo com a fotografia pela primeira vez, pois embora ainda muito jovem naquela época tive o prazer de manipular todo o arquivo fotográfico deixado pela atriz Dulcina de Moraes, por quem eu tinha (e ainda tenho) uma profunda devoção como artista.
Levei uns anos para decidir investir na profissão de fotógrafa, pois achava uma arte cara, que necessitava de um investimento alto e naquele momento eu estava mais preocupada em me dedicar à vida pessoal e projetos de juventude. Pouco depois, ao ver uma fotografia feita por mim que eu gostava muito e sentir  coração inquieto, achei que era o momento de adquirir meu primeiro equipamento profissional e investir em formação técnica e pesquisa de desenvolvimento de poética pessoal, coisa que faço até hoje, pois adoro estudar. No mesmo ano, passando férias em Paris, um marchant viu uma fotografia minha e me incentivou a fazer um curso na cidade. Optei pelo retrato. Ali começou um envolvimento que dura até hoje.
2.Como você vê o papel da fotografia na contemporaneidade?
Segundo Joan Fontcuberta as três coisas mais populares do mundo são Jesus Cristo, a Coca-Cola e a fotografia digital. Concordo com ele e não vejo esta questão como um problema, há vários artistas contemporâneos usando a liquidez do excesso de imagens deste século em seus trabalhos criativos e os resultados são bem instigantes. A minha geração trabalha num contexto de pós-fotografia, o que vejo de bom nisso é a liberdade criativa, sem as amarras do purismo fotográfico.
3.Com quais fotógrafos e fotografias você se identifica e por quê?
Tenho como mestres Antoine D´agata e Eustáquio Neves. Ano passado tive a experiência de fazer uma imersão fotográfica com Antoine e o processo foi riquíssimo. Eu fico impressionada como ele consegue explorar temas como prostituição e o corpo humano de uma maneira tão crua e bonita. Ele nos apresenta mundos desconhecidos e se inclui neles, deixando perguntas no ar. Vejo pura poesia nas imagens dele, é um grande artista.
Já Eustáquio Neves trabalha de outra maneira, vejo a crítica que ele faz de uma maneira mais direta, mas com uma potência tão grande que costumo sonhar com as imagens dele. Tem uma imagem dele que gosto tanto que outro dia sonhei que estava dentro dela.
Eu me interesso de maneira especial pelo trabalho desenvolvido pelas mulheres fotógrafas, pois esse também é meu espaço de fala. A Rosângela Rennó sempre foi uma referência para mim, me encanta a maneira pela qual ela desconstrói com maestria a fotografia como meio, como suporte. Também gosto muito do trabalho fotográfico da espanhola Mireia Sallares, que é uma artista de processo, com uma postura política muito clara. Recentemente tenho observado muito o trabalho da Ana Lira, uma jovem artista pernambucana com um trabalho muito potente. Tenho acompanhado de perto e de maneira ativa as questões de gênero dentro do mundo da fotografia, inclusive em relação às questões de mercado. A nossa exposição no Museu da República traz um recorte interessante nesse sentido.
4.Você acredita que ainda haja fronteiras de linguagem que delimitam campos entre fotografia e arte ou pensa que isso nunca foi uma questão relevante?
Não vejo essa fronteira e a formação que tive nunca me impediu de pensar assim. No século XXI tudo pode ser resignificado. Um bom exemplo disso é o trabalho de Rosângela Rennó apresentado na penúltima Bienal de São Paulo, chamado “Mais Valia Leilão”, onde objetos fotográficos algumas vezes próximos à condição de descarte tinham o valor recolocado após o investimento de trabalho da artista na peça.
5.Os portfolios selecionados para esta exposição tem, guardadas as diferenças entre os projetos de cada fotógrafo, o espaço e a arquitetura como elementos em comum. Como você vê a interseção entre essas questões (espaço, espacialidades, arquitetura, cidade, ocupação urbana etc) em relação à série que você apresenta neste evento?
Nunca tinha pensado em explorar a arquitetura como tema, mas morando em Brasília e tendo tido o fotógrafo espanhol Nicolás Combarro como orientador de um projeto pessoal ficou difícil não trazer a arquitetura para a minha poética. Moro no centro de Brasília, vejo os cartões postais arquitetônicos da cidade todos os dias. Nicolás pesquisa arquitetura por anos a fio e tê-lo como orientador me influenciou bastante.
Como trabalho majoritariamente com retratos, a captura de paredes de casas do interior do Brasil, pintadas pelos seus próprios moradores, me fez vez uma relação entre as paredes e suas marcas, a pele dos moradores e seus humores de acordo com a paleta de cores. Meu trabalho foi apenas mais uma tentativa de entender melhor esse mundo (que me assusta).

Sobre o Foto Capital

Para Kazuo Okubo, idealizador do Foto Capital, a realização de um evento dedicado à fotografia com leitura de portfólios é uma oportunidade única para os fotógrafos apresentarem seus trabalhos a importantes curadores, estudiosos da fotografia e realizadores de festivais, que podem abrir portas para uma maior visibilidade da produção dos artistas visuais. Já em relação a mostra “Sobre linhas, membranas e fronteiras”, Kazuo Okubo ressalta que é um prêmio importante, que ampliará significativamente os currículos e a possibilidade de os artistas terem seus trabalhos vistos por galeristas e pelo grande público.

O Foto Capital é uma realização da galeria A Casa da Luz Vermelha e é apresentado pelo Fundo de Apoio à Cultura (FAC), Secretaria de Cultura, Museu Nacional da República e Governo de Brasília. Apoiam esta iniciativa a Rede de Produtores Culturais da Fotografia no Brasil (RPCFB), o Museu Nacional, a Canson Infinity e o Centro Universitário IESB.

Serviço

Serviço
Sobre linhas, membranas e fronteiras
Mostra fotográfica itinerante, de portfólios selecionados pelo Foto Capital
Artistas: Cléo Alves Pinto, José Roberto Bassul e Michelle Bastos
Curadoria: Renata Azambuja
Inauguração/bate-papo: 07 de novembro, às 20h – acessível em Libras
Visitação: Até 08 de dezembro
De segunda a sexta, das 10h às 19h; Aos sábados e domingos com agendamento prévio.
Local: A Casa da Luz Vermelha
SCES Trecho 02 Conjunto 31 – ASBAC, Asa Sul, Brasília – DF, 70200-002
Realização: A Casa da Luz Vermelha e Galeria Olho de Águia
Mais informações: (61) 3878-9100 | contato@fotocapital.net

Este evento é parte integrante do projeto FAC, 1o FESTFOTO Brasília, processo 150.000.233/2016.